ciclo regenerantes de gaia

O Ciclo de Leitura Regenerantes de Gaia acontece em quatro encontros semanais de 2 horas às terças-feiras, transmitidos no canal Selvagem do youtube.

Datas: 07 a 28 de junho de 2022
Horário: 16h às 18h
Convidados: Antonio Nobre, Eduardo Góes Neves, Valdely
Kinupp, Alice Worcman, Flavia Aranha, Maria Silvanete Lermen e
Ailton Krenak
Mediado por Fabio Scarano
Artista Convidada: Mitti Mendonça
* os encontros ficarão disponíveis no canal Selvagem do youtube.

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material de estudo

Sobre o ciclo:

Somos parte de Gaia, o sistema vivo planetário da Terra. Um sistema que se auto-regula, recicla todos seus átomos sem deixar resíduos. Este enorme processo colaborativo é, portanto, o que chamamos de vida. No entanto, hoje, Gaia sofre. Outro sistema foi desenvolvido pelo projeto capitalista, envolvendo grande parte dos humanos e provocando o aquecimento global.

Produtos em massa são gerados a partir da extração do que chamam de matéria-prima. O consumo é um elo importante dessa cadeia de ações, é onde toda gente se conecta e compactua com a incessante produção de coisas, de mercadorias.

Diante deste grande mercado que come o planeta e produz uma quantidade avassaladora de combustíveis e materiais de plástico, metal, tecidos, papéis, vidros e outros tantos bens, o que podemos fazer?

O cerne de tudo está no nosso impulso de vida, no que desejamos, que vida sonhamos. Vendem-se estilos de vida perfeitos que custam muito caro ao planeta, e cruelmente não são acessíveis à maior parte da população. Manipula-se assim o sonho de obter vidas perfeitas, alcançá-las através do consumo, do pacto com a necessidade por produtos para ser feliz.

Transformar o que sonhamos é, portanto, um caminho. Transformar nossa cognição programada para o sistema utilitário capitalista.

Esse ciclo é para quem busca abrir uma janela nesta matrix chamada de humanidade e pesquisar formas de se tornar regenerante de Gaia.

ROTEIRO

07/06 – Primeiro encontro
regenerando a partir dos sonhos

A regeneração do corpo, da casa e do cosmos Com Antonio Donato Nobre, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
A Samaúma, uma das maiores árvores da floresta amazônica, é ao mesmo tempo corpo (árvore), casa (aldeias são feitas ao redor delas e elas abrigam vários outros seres) e cosmos (ela liga terra e céu – é um “eixo do mundo”). Regenerar envolve religar as pessoas ditas modernas a si mesmas, ao próximo e aos elementos não-humanos da natureza.

Antonio Nobre recentemente disse que “esquecer do nosso corpo é esquecer de Gaia, esquecer do mundo, esquecer das flores”. De certo modo, esquecemos até de sonhar, o que traz o mundo ao cenário distópico atual. Antonio discutirá a importância de sonhar para regenerar.

Antonio Donato Nobre é cientista e ativista, com relevante atuação na divulgação e popularização da ciência. Formou-se em Agronomia, tem mestrado em Ecologia Tropical e doutorado em Ciências do Sistema Terrestre. Seu foco principal de estudo é a Amazônia. Já foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e atualmente é pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

14/06 – Segundo encontro
amazônia e o “manejo da abundância”

Na Amazônia, a diversidade é biocultural. Diversidade biológica é fruto da diversidade cultural e a diversidade cultural é fruto da biológica. Com Eduardo Góes Neves, arqueólogo da Universidade de São Paulo e Valdely Kinupp, especialista em PANCs e responsável pelo Sítio Escola Panc em Manaus.

O “manejo de abundância”, muito análogo à visão de abundância do Ernst Gotsch. Vamos falar sobre a terra preta e a fertilidade do solo. A floresta amazônica que vemos hoje resulta, em parte, de uma história de domesticação, e em parte de uma história de reocupação a partir de regeneração. Práticas de sobrevivência e geração de abundância. A regeneração de Gaia passa por diálogo e conversa entre diferentes pessoas e mundos.

Eduardo Góes Neves é historiador, mestre e doutor em Antropologia. Professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, onde coordena o Laboratório de Arqueologia dos Trópicos. Sua extensa produção científica e histórico de orientação de mestres e doutores se volta principalmente para a Arqueologia Amazônica. Foi ganhador do Prêmio de Pesquisa do Shanghai Archaeological Forum em 2019.

Valdely Kinupp é professor Doutor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM- CMZL) e Fundador–Curador do Herbário EAFM deste instituto. Docente e orientador credenciado no Programa de Pós-Graduação em Botânica do INPA. Atua na pesquisa e divulgação das PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais. Tem experiência na área de Botânica e atua principalmente nos seguintes temas: alimentos vegetais não convencionais, recursos genéticos vegetais, segurança alimentar, florística, olericultura (hortaliças não convencionais) e agroecologia. Autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi (Editora Plantarum, 2014).

21/06 – Terceiro encontro
plantas que alimentam e regeneram cidades

Plantas regeneram e regeneram Gaia. Com Alice Worcman, praticante da agrofloresta, e Flavia Aranha, estilista que faz roupas vivas.

Tem se difundido o conceito de cidades regenerativas na literatura de urbanismo, design etc. Isso envolve agricultura urbana e a inserção de outros espaços verdes na cidade. A regeneração dupla do espaço e do tempo, no sentido de corpo e casa, uma “alça” para a gente regenerar nossa relação com o cosmos. Uma conversa sobre as “sementes do bom antropoceno”, que é um conceito sobre coisas que estão sendo feitas hoje em dia e que podem nos ajudar a “virar o jogo”.

Alice Worcman é idealizadora da “Organicidade”, uma instituição que atua em rede regenerando ambientes e conectando ecossistemas urbanos entre os saberes ancestrais e as novas tecnologias para melhorar a vida em cidades. Alice estudou História da Arte e Design para Sustentabilidade, além de ser autodidata em Plantas Alimentícias Não Convencionais e pesquisadora da biodiversidade alimentícia. Praticante e aprendiz da agricultura urbana, acredita que a continuidade da existência da nossa espécie está ligada à observação, interação e regeneração com a natureza que habitamos e nos habita.

Flavia Aranha nasceu em Campinas, interior de São Paulo, e cresceu em um ambiente conectado à natureza e à arte. Seu olhar sempre se ateve às dualidades cotidianas; a delicadeza e potência em tudo o que existe conduzem seu processo criativo e caminho empreendedor. Após sua experiência na indústria convencional da moda, em 2009, abriu seu primeiro ateliê-loja na Vila Madalena, São Paulo, tendo o tingimento natural como cerne da marca homônima. A designer reúne conhecimentos tradicionais a novas tecnologias para o desenvolvimento de produtos que possam gerar impactos mais positivos na sociedade e no meio ambiente por meio da moda.

28/06 – Quarto encontro
a regeneração é a cura

Plantas que regeneram pessoas Com Maria Silvanete Lermen e Ailton Krenak

A cura pelo uso de plantas medicinais ou pela simples presença de plantas e de outros elementos da natureza. Os quintais. Duas novas doenças diagnosticadas são relacionadas às fraturas nas relações humanas com o mundo: com nós mesmos, com o próximo, com os elementos não-humanos da natureza. Uma vem sendo chamada “Extinção da Experiência” e decorre da falta de contato com a natureza, particularmente comum em jovens urbanos. A outra, “Ecoansiedade” é associada a um determinado tipo de ansiedade, e eventualmente pânico, diante da iminência de desastres ambientais. A medicina presente em plantas de cura, bem como a simples exposição a sistemas naturais (em alguns casos conhecida por diferentes formas de ecoterapia), são antídotos a esses males.

Com o advento da pandemia da Covid-19, também ganhou evidência o conceito de “saúde integral” ou “saúde única” (do inglês, One Health). Esse conceito se refere ao reconhecimento pela ciência que a saúde humana é dependente e integrada à saúde dos ecossistemas. A conversa vai não só introduzir esses conceitos, como principalmente irá discutir como tais curas, terapias e profilaxias são há muito conhecidas de povos indígenas, locais e ancestrais, ainda que por outros nomes.

Maria Silvanete Lermen é educadora popular, orientadora em saúde comunitária, benzedeira de mãos postas, orientadora de portais ancestrais, agroflorestora, praticante e pesquisadora das vivências dos povos. Vive na Serra dos Paus Dóias, em Exu, Sertão do Araripe, PE

Ailton Krenak é pensador, ambientalista e uma das principais vozes do saber indígena. Criou, juntamente com a Dantes Editora, o Selvagem – ciclo de estudos sobre a vida. Vive na aldeia Krenak, nas margens do rio Doce, em Minas Gerais. É autor dos livros Ideias para Adiar o Fim do Mundo (Companhia das Letras, 2019), O Amanhã Não Está à Venda (Companhia das Letras, 2020) e A Vida Não é Útil (Companhia das Letras, 2020).

Mediação: Fabio Scarano
Professor de Ecologia e responsável pela Cátedra Futuros Regenerativos do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ. Tem atuado no sentido de estreitar o diálogo das pesquisas científicas em biodiversidade e mudanças climáticas com o conhecimento indígena, com as religiões e a arte. Assim, colabora com projetos e instituições que promovem tais espaços de diálogo, como o Selvagem, o Instituto de Estudos da Religião (ISER), o Livmundi e o Museu do Amanhã. Recebeu dois prêmios Jabuti por seus livros. Participou de vários projetos da Dantes Editora e publicou Regenerantes de Gaia (2019), que em parte inspira esse ciclo.

Artista convidada: Mitti Mendonça
Mão Negra Resiste é um selo artístico criado pela artista têxtil e ilustradora Mitti Mendonça. Criada em 2017, a marca visa o protagonismo negro no universo da arte. Suas principais abordagens são as poéticas negras, memória, ancestralidade e afeto. A artista busca valorizar a história do bordado que circula há quase 100 anos entre as mulheres da família. Sendo assim, usufrui do bordado, desenho e ilustração digital para a criação de seus trabalhos. É natural de São Leopoldo, RS, onde reside e tem seu ateliê.